Textos do Lander
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Nossos olhos

                   Divago. O meu pensamento é tão a toa que, de teimoso, sempre após alguns contornos, para em uma imagem: Seus olhos. 
       Como você mesmo os descreve, até lembrando aquela música, seus olhos cor de tempestade. Como eles combinam com o meu! Os meus, castanho-esverdeados, são a terra a ser fertilizada e a vida é voc
ê que me traz.


Texto publicado originalmente em 05/04/2008.



Escrito por Lander Paz às 21h36
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  Por divagar

Por divagar

A brisa do outono desse lado de dentro do Brasil areja a noite. Boto meus pensamentos para fora, transformo-os em palavras, de modo que as ponha lado a lado e as ordene da melhor maneira. Encaro-as, classifico-as e divago. Como só de pensar nessas suas pernas já perco as palavras e faço desandar o texto?

Dessas palavras, já não sei se faço poesia ou oração.

Ah, se hoje fossem poucos os passos que nos separam. Se apenas atravessar de uma rua, de um bairro ou até mesmo da cidade fosse o suficiente para estarmos juntos de fato, de direito, de coração e de alma. Se o que nos põe longe fosse possível de se medir em metros ou tempo.

E em um mundo a parte, já quase que em um delírio, desejo dar beijos nessa sua face alva e redonda, tal qual a lua que se faz presente para tornar essa noite suportável. Dar beijos nesses seus lábios lindos e rosados, mas vários beijos daqueles de se jogar contra a parede, pegar firme pela cintura e deixar a alma dançar de euforia.

Então, volto da divagação. Começo a reorganizar. Encaro-as, classifico-as e divago.

 

 



Escrito por Lander Paz às 22h38
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  Domínio do envelhecer

Domínio do envelhecer

 

Sentava-se a mesa. Abria o jornal apenas para mostrar que era mais velho que todos os presentes. Pedia aquela cerveja que vem parecendo noiva. Era seu ritual de domingo.

Esse era Lopes. Maduro pelos bem mais de meio século de vida, e moleque pela insistência em não envelhecer.

Lopes não era aquele senhor de contar como era o seu tempo aos mais novos. Ele preferia viver o tempo atual junto a eles. Sempre envolto em uma festa, uma reunião com intuito de apenas exagerar na bebida, uma viagem à praia.

E foi assim, apenas pela fama que Lopes é lembrado. Não se tem histórias de seu passado, de como a vida o trouxe até os amigos, pois isso, o envelheceria além do aceitável. Lopes não era figura única de uma história. As histórias sobre ele sempre começam com “Uma vez, eu e o Lopes...”. Assim, quem não o conhecesse, achava que era alguém da mesma idade do narrador.

Cumpriu-se o seu desejo sem que ele precisasse pedir. Lopes, agora, é sempre jovem.



Escrito por Lander Paz às 16h29
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  Minha Campo Grande: Setembro

 

Minha Campo Grande: Setembro

 

Por essas bandas, setembro marca a chegada da primavera. Embora, por aqui, os meses anteriores já coloriram o cenário com o florescer dos ipês.

Mesmo assim, não há como se medir quanta a felicidade pela chegada de setembro. O mês que marca o começo do final do ano. Como pensa aquela velha senhora: setembro tem gosto de final, porque é o primeiro mês que termina com “bro”.

Não só é só pela primavera que, nesse canto no meio da América do Sul, iremos comemorar setembro. O que não falta são motivos. A entrada de setembro marca o fim do mês do cachorro louco, por exemplo. 

Um brinde. Um brinde com o tereré mais gelado que tiver, com roda de amigos e suas histórias.

Vamos à segunda estação do ano, pois, são vários meses em um tipo de verão. Temperaturas que nos fazem desejar estar à beira do lago. Esse clima, nos faz desejar ver as garças em revoada por esse lago. Como é bom curtir esse cenário. E há quem reclame dessa minha vida como capivara.

 



Escrito por Lander Paz às 14h42
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  Texto: Minha Campo Grande - O relato de uma citadina

 

Minha Campo Grande: O relato de uma citadina

 

Adoro quando agosto vem nos visitar, aqui, nessa terrinha perdida no Centro-Oeste do Brasil. O clima seco, os ventos constantes, levantando poeira por todo o canto. Como adoro o florescer dos ipês nesse final de inverno, que quase sempre marca um frio de trinta graus Celsius.   Poder passear com a família no Parque dos Poderes. Desfrutar a paisagem do Parque das nações indígenas.

Hoje decidi ficar parada, a beira do lago, contemplando a beleza que essa cidade nos oferece. Esse é o meu motivo de existir.

Como fico feliz quando consigo mostrar para aquela pessoa que vem pela primeira vez ao Mato Grosso do Sul,suspeitando que irá encontrar animais perambulando pela cidade, que ela está certa.  Afinal, minha função como capivara é ser mostrada por nativos aos amiguinhos. “Olha lá. Uma capivara. E tem muitas por aqui. Como é bom viver em um lugar quem tem jeito de cidade grande, mas alma de interior.” dizem orgulhosos esses seres que habitam a Cidade Morena.

 

Como o ser humano é engraçado. Campo-grandenses ficam todos cheios de ódio quando são questionados se no meio da cidade tem jacaré, se há onça andando pela Afonso Pena. Já, quando recebem esses brasileiros nascidos há quilômetros daqui, mostram o Parque das Nações Indígenas e suas capivaras. O Lago do Amor para ver mais capivaras e também pássaros. Dando sorte, um jacaré. E lá seguem para a UFMS, ver as capivaras acadêmicas. E afirmo, muitas de nós prestam mais atenção nas aulas do que vários universitários.  Outras são orgulho, pois já estão frequentando mestrado.

Tudo bem se aquele que veio não sei da onde não achou a onça na Afonso Pena, principal avenida da cidade. Não viu onça, mas viu o obelisco. Cada cidade tem o símbolo fálico que merece.

Pessoas de Campo Grande, não fiquem magoadas comigo pelo que afirmo nesse texto. Sejam espirituosas. Adoro essa cidade, minha família escolheu aqui para viver. Não seria tão entusiasmante morar nas margens do Tiête ou do Pinheiros, ou morar na Baía de Guanabara.

Não tenho intenção de falar mal de Campo Grande. Afinal, sou uma capivara, vai que decidem ir caçar.

 



Escrito por Lander Paz às 19h04
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  Texto: A melhor resposta

 

A melhor resposta

 

A única opção que existe é melhorar!

Simples assim. É fato. Não há em quem jogar a culpa. Então, até há culpados, e muitos. Ser justo com todo mundo não quer dizer que o mundo será justo com você, e você tem que estar preparado para isso. E ele estava.

Os anos de dedicação se foram. O motivo? Há os que digam que tudo foi armado. Perseguição, ódio, ego. Mesmo assim, ele reafirmou  que a única opção que existe é melhorar.

Pois, em se tornando melhor no que está fazendo ou no que se propôs a fazer você corre o sério risco de se tornar referência.

Não pense que ele havia perdoado a todos, pois, confessou quando estava ligeiramente bêbado que a raiva ainda lhe corria. Mesmo assim, decidiu seguir em frente. Enquanto uns se gabam com o poder apenas atrapalhar a vida dos outros ele, timidamente, sem alarde, fazia seu caminho cada vez mais preparado.

Bom, está meio auto-ajuda isso aqui, caro leitor, mas, é que deu-me vontade de contar, pois tudo aqui conspira para que o mau humor impere. Esse dia passa muito lendo, não aguento mais esse serviço chato.

Mas, já dito o que havia dizer, tenho que voltar ao trabalho, afinal, capivara do parque das Nações Indígenas ganha para ser objeto de contemplação de pessoas que vem a Mato Grosso do Sul achando que os bichos passeiam pelas ruas das cidades, e eu, claro, sirvo para comprovar isso. 

 



Escrito por Lander Paz às 19h00
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  Carta à Ana Paula

Carta à Ana Paula

 

Nós somos as nossas escolhas. Somos reflexo delas e agimos conforme as consequências. Acredito nisso. Acredito a ponto de me arriscar por isso.

 

Há algum tempo poderia escolher que a distância é um obstáculo complicado, que os anos que separam nossa chegada ao mundo são motivos para nem começar, que o medo de que alguns quilômetros acabem com qualquer sentimento. Poderia escolher não sentir saudades, escolher não ficar horas na estrada para ter mínimas horas de recompensa. Mas não.

 

Sinceramente, ainda bem que não escolhi nada disso. Fiz uma escolha simples: Ana Paula.

 

Adoro estar ao seu lado, mesmo que por muitas vezes você por teimosia, apenas para dar voz ao seu gênio e ser chata, faça de tudo para me irritar. Adoro estar ao lado da menina, que sempre pensa que cada correção feita por mim é porque sou um chato que deseja saber sempre a mais do que ela. Afinal, o orgulho fala mais alto. Mas, como disse, eu a escolhi. E aceito minhas escolhas.

 

Não quero roubar nada seu. Não quero roubar sua juventude, seu tempo, as festas, seu amor. Não quero roubar nada, quero ser merecedor.

 

Estar sem você é estar um pouco mais triste, um pouco mais perdido, um pouco sem foco. Estar sem você é estar abdicando um monte da minha pessoa.

 

Minha chata, minha amiga, aquela que diz que me ama e que faz cada cobrança absurda. Aquela que apenas o som da voz é capaz de me acalmar, que tenta me obrigar a obedecê-la sem um motivo razoável. Você, meus prós e contras, minha namorada.

 

E depois de anos, ainda hoje, eu escolho você.  

 



Escrito por Lander Paz às 19h08
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  Porque perdemos um escritor

 Porque perdemos um escritor

 

O dia amanheceu frio. Bem diferente dos dias desse lugar entre trópicos. O sol, companheiro em quase todos os dias do ano, resolveu folgar. Queria continuar dormindo para fugir do tédio. Então, o toque do telefone desperta-o de seus sonhos. Deixa de ser o herói lutando contra uma mistura de coelhos e tigres para voltar a sua vida sem graça.

 

Sentou-se a frente do computador e resolveu escrever. Sem foco, sem inspiração, sem ideias, queria falar sobre tudo o que fosse, menos sua vida. Essa, era medíocre demais para ser pinceladas palavras colorindo qualquer papel. Já sua imaginação, não.

 

Pena que justo nesse dia sua vida resolveu ter graça, e como teve graça, não escreveu nada. E foi assim por anos. E por anos ficou sem escrever. A falta do tédio nos tirou a possibilidade de proclamar mais um escritor de fracassado. Uma lástima.

 



Escrito por Lander Paz às 12h06
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  Por Acaso - Meus Contos em um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Essa é a capa do livro. Finalmente, ele está pronto.

Para baixá-lo em PDF clique aqui. 

Espero que gostem. Boa leitura.


Eu dei uma parada de atualizar meu blog porque estava trabalhando nesse livro. Logo, voltarei com postagens regulares. Mas antes, baixe, leia e indique a um amigo.



Escrito por Lander Paz às 18h26
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  É folia

É folia

A primeira cerveja do dia. Aquela que desce mais saborosa. A cerveja que sentimos as definições de sabor, que mata a sede e sacia o prazer. O primeiro passo para o carnaval dele.

A segunda cerveja do dia é apenas mais uma em meio de tantas. E de outras coisas ingeridas, como as duas doses de uísque, o litro de vodca barata misturada com qualquer coisa que ele nem vai lembrar no dia seguinte.

Entre os goles um cortejo aqui, um sucesso acolá, e se agüentasse, talvez um sexo mais tarde.

Doses de tequila, pinga com limão, uma bebida desconhecida (mas para ele tanto faz, o importante é ter algum teor alcoólico), vinho, conhaque e muitas coisas mais.

Lá por tantas da noite, mal chegando na folia, ele já estava muito mal.

Nesse dia ele não pulou carnaval, mas sim rastejou. Rastejou o quanto pode, o quanto aguentou beber. Mas sem problema, amanhã tem mais. É folia, minha gente. 

 



Escrito por Lander Paz às 15h56
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  Donc

 

Donc


A luz do sol conseguia entrar ao máximo apenas até metade da caverna, que tinha uma bela vista para umas terras cheias de água. Hora ou outra, podiam-se ver alguns bichos passeando pelo quintal, a revoada dos tuiuiús e garças ao entardecer. A morada tinha um clima grotesco e bucólico, se é que Donc soubesse disso.

Donc foi nomeado assim por ele mesmo. Era o som que ele fazia costumeiramente e por isso tinha por instinto ser essa sua alcunha. Donc foi criado, não se sabe ao certo o porquê nem o como, por um bando de queixadas. Era o menino-animal brasileiro do Mato Grosso do Sul. Tinha por volta de treze anos, mas aparentava muito mais. Como natural dos adolescentes, estava descobrindo o sexo com uma fêmea de seu bando, mas isso não é de interesse para nossa história.

Donc, tinha a idéia de que ele era o mais hábil do bando. Tinha noção de que suas patas (a chamaria assim se tivesse o domínio da Língua Portuguesa) eram melhores instrumentos de caçar do que apenas as presas de seus companheiros. Até conseguia manusear pedaços de madeira com os quais desferia golpes mortais em suas presas. Donc era o melhor e possivelmente o futuro líder do bando.

Em uma caçada ilegal, um grupo de assentados de uma gleba qualquer do estado, achou esse menino arredio, correndo junto as queixadas para se proteger dos tiros. Logo, foi comunicado a polícia que em uma andança para se observar a natureza, acharam um menino misturado a um bando de porcos.

Capturam-no, demoram meses para alguma adaptação. O chamam de Donc, pois esse é o barulho que ele mais faz. Ele começa a compreender um pouco do mundo dos humanos, esses seres tão mais parecidos com ele, mas com um cheiro diferente. Fica famoso, todos querem vê-lo. Ganha casa e pensão. Interessa-se pelas fêmeas humanas, mas sem sucesso amoroso. 

Logo recebe a alcunha de menino-porco. Todos começam a falar do guri feio, baixinho, que fede. A fama, com o tempo vai passando. Donc deixa de se sentir o futuro líder do bando. Donc agora é o que os outros disserem que ele era. Sua existência passava a ser essa de feio, baixinho, que fede. Procurou uma solução.

Rendeu-se ao Alcoolismo.

 



Escrito por Lander Paz às 10h00
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  Existir

 

Existir

 

No início era apenas ele. Único, onipresente do nada. Era o pensamento, a essência. Existia por si só. Existia por que pensava. Afinal, estava ali, dono de tudo. Talvez por tédio, o senhor das ciências biológicas e exatas fez tudo a perfeição a partir de uma simples explosão.

Ele também é muito letrado nas ditas ciências humanas. Senhor de todas as filosofias. Mais uma vez, possivelmente do tédio, fez-se de sua vontade um planeta e nele pôs Adão.

Sua existência passou a ser comprovada em outro ser. Os dois sabiam que existiam, sabiam que o outro existia e sabiam que o outro sabia que ele exista. Mas o pobre Adão andava solitário em um planeta tão extenso. Precisava de uma companhia. E veio Eva para reafirma a existência de todos.

Agora, ele estava onipresente em tudo que criara. Mas não pode evitar que anos depois sua existência passaria a ser questionada. 



Escrito por Lander Paz às 11h10
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  Como o dia começa

 

Como o dia começa

 

Acordar cedo todo dia é um sacrifício. Sempre aquela briga, sempre a pedir quinze minutos a mais para o despertador.  Acordar de bom humor então, raridade.

É muito bom olhar para seus olhos ainda fechados, sua face já emburrada pela manhã. Seguro seu rosto e beijo sua boca que está com aquele hálito matinal que eu ignoro, pois também ainda não escovei os dentes.

Você me abraça, como que a pedir agora os quinze minutos para mim. Eu, às vezes, confesso, cochilo nesse meio tempo, mas sempre acordo antes de você levantar.

Depois de vencer os últimos vestígios de sono, acontece todo aquele ritual matinal. Na mesa do café da manhã são proferidas poucas palavras. A alimentação é maquinal, por obrigação. Eu fico parado, olhando você ainda de pijama, linda a mastigar qualquer coisa. Não resisto, saio da minha cadeira e vou a sua direção.

Voltaremos para o quarto se der para chegar. E é só depois disso que nosso dia realmente começa.


 



Escrito por Lander Paz às 11h10
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  A brincadeira de Marina

 

A brincadeira de Marina


Caminham. Voltas e voltas pelo estádio. Carros e árvores se misturam como cenário. Caminham essas pessoas. Muitas, que de vez em quando, resolvem levar uma vida um pouco menos sedentária.

Meninas desfilando a sexualidade que algumas fingem ter. Mulheres em briga com a balança. Homens acima dos 30 que decidiram parar de cultivar uma barriguinha, esse bando de frescos. E é claro, o gênio que montou um bar nas imediações. Esse deve ser ídolo de uma multidão.

A famosa academia dos velhos, com equipamentos que se propõem a mover as articulações sem tanto impacto, fica cercada por inúmeros jovens a inventar novas utilidades para esses brinquedos.

Será que o amor pode acontecer em uma ambiente assim? Será que a poesia pode nascer de algo assim? Torcicolos certamente são previsíveis pelo tamanho de trabalho que o pescoço dessas pessoas tem durante o exercício físico.

Acontece que Marina, menina bonita, de caderno na mão vai lá para se inspirar. Escreve por cerca de uma hora por dia. Sentada em uma cadeira, que faz parte do seu equipamento de final de tarde. Lá ela dissimula analisar e descrever personagens da vida real.

Marina, menina bonita, magra e gostosa por natureza. Ela não deve ir lá para escrever um livro. Pois calada, analisando, não chega a conhecer a fundo as pessoas. Marina deve ir lá apenas para torturar as pessoas. Apenas para mostrar que não precisa de tantos sacrifícios para ter um belo corpo. Pelo menos estes sacrifícios, estes que são expostos.

Seria mais engraçado se ela fossa escrever seus textos em uma academia, mas lá não seria agradável e fresco como ao ar livre. Marina, menina bonita e serelepe.  

 

 



Escrito por Lander Paz às 10h50
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  Habitual de Amanda


Habitual de Amanda


Amanda abriu os olhos, espreguiçou-se e levantou com o ânimo habitual. Era segunda-feira. E lá se ia ela a perder-se em rotina. As flores só têm cheiro para quem nunca passou pelo jardim, as árvores são verdes para quem nunca caminhou por essa rua.

Com sua visão cinza de Campo Grande, ia Amanda ao ponto de ônibus, passando por belas e cheirosas paisagens para as quais seus instintos estavam adormecidos. A rotina brutal de sentar-se e esperar o tempo passar havia anestesiado sua percepção.

Os sentimentos das oito as dezoito eram maquinais. Era sempre assim de segunda a sexta. Nos sábados até o meio dia. Desse período em diante, principalmente aos domingos, acontecia a metamorfose. A crosta burocrática se quebrava e uma pessoa amável e religiosa brotava. Amante da vida até as vinte e uma horas, horário de dormir.

Essa era a regra. Vamos à exceção:

Segunda-feira foi rotineira até o horário de almoço. Foi por esse horário que se deparou com o calendário. Notou então que era seu aniversário, encheu-se da nostalgia e depressão que lhe davam prazer. Pensou só no que não havia feito. Analisou que o dia correria de forma diferente e que sua família poderia ter notado qual data era.

Fingiu então alegria pela possível festa surpresa que estavam preparando. Eles não eram bons de surpresa, mas eram uns bobos amáveis. As horas correram com um tom de ansiedade. Os barulhos dos carros zumbiam notas de prazer pela vida correr caótica. As horas passaram.

Amanda recebeu uma ligação, pediam que fosse a casa de Augusto. Ela analisou e decidiu ir para casa direto. Esse convite para casa de Augusto era para distraí-la enquanto terminavam os preparativos. Confirmou o convite e partiu para casa.

Abriu a porta esperando ter segundos de verdadeira felicidade por haver pessoas da quais gosta reunidas. Deparou-se com o breu e o silêncio por segundos. Retornou a frieza habitual. Iria receber os parabéns quando todos chegassem do trabalho. Foi dormir. Para que não fosse incomodada, desligou-se do mundo.

Na casa de Augusto todos esperavam por Amanda que demorava a aparecer. Alguns parentes já bêbados, pois haviam atacado as cervejas antes da hora. A aniversariante não chegava e parecia incomunicável. A festa surpresa havia melado.

 

(Em oferecimento a minha prima Fabíola pelos 25 anos dela (P.S. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência ou sacanagem mesmo))

 



Escrito por Lander Paz às 12h02
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