Textos do Lander
  Porque perdemos um escritor

 Porque perdemos um escritor

 

O dia amanheceu frio. Bem diferente dos dias desse lugar entre trópicos. O sol, companheiro em quase todos os dias do ano, resolveu folgar. Queria continuar dormindo para fugir do tédio. Então, o toque do telefone desperta-o de seus sonhos. Deixa de ser o herói lutando contra uma mistura de coelhos e tigres para voltar a sua vida sem graça.

 

Sentou-se a frente do computador e resolveu escrever. Sem foco, sem inspiração, sem ideias, queria falar sobre tudo o que fosse, menos sua vida. Essa, era medíocre demais para ser pinceladas palavras colorindo qualquer papel. Já sua imaginação, não.

 

Pena que justo nesse dia sua vida resolveu ter graça, e como teve graça, não escreveu nada. E foi assim por anos. E por anos ficou sem escrever. A falta do tédio nos tirou a possibilidade de proclamar mais um escritor de fracassado. Uma lástima.

 



Escrito por Lander Paz às 12h06
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  Por Acaso - Meus Contos em um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Essa é a capa do livro. Finalmente, ele está pronto.

Para baixá-lo em PDF clique aqui. 

Espero que gostem. Boa leitura.


Eu dei uma parada de atualizar meu blog porque estava trabalhando nesse livro. Logo, voltarei com postagens regulares. Mas antes, baixe, leia e indique a um amigo.



Escrito por Lander Paz às 18h26
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  É folia

É folia

A primeira cerveja do dia. Aquela que desce mais saborosa. A cerveja que sentimos as definições de sabor, que mata a sede e sacia o prazer. O primeiro passo para o carnaval dele.

A segunda cerveja do dia é apenas mais uma em meio de tantas. E de outras coisas ingeridas, como as duas doses de uísque, o litro de vodca barata misturada com qualquer coisa que ele nem vai lembrar no dia seguinte.

Entre os goles um cortejo aqui, um sucesso acolá, e se agüentasse, talvez um sexo mais tarde.

Doses de tequila, pinga com limão, uma bebida desconhecida (mas para ele tanto faz, o importante é ter algum teor alcoólico), vinho, conhaque e muitas coisas mais.

Lá por tantas da noite, mal chegando na folia, ele já estava muito mal.

Nesse dia ele não pulou carnaval, mas sim rastejou. Rastejou o quanto pode, o quanto aguentou beber. Mas sem problema, amanhã tem mais. É folia, minha gente. 

 



Escrito por Lander Paz às 15h56
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  Donc

 

Donc


A luz do sol conseguia entrar ao máximo apenas até metade da caverna, que tinha uma bela vista para umas terras cheias de água. Hora ou outra, podiam-se ver alguns bichos passeando pelo quintal, a revoada dos tuiuiús e garças ao entardecer. A morada tinha um clima grotesco e bucólico, se é que Donc soubesse disso.

Donc foi nomeado assim por ele mesmo. Era o som que ele fazia costumeiramente e por isso tinha por instinto ser essa sua alcunha. Donc foi criado, não se sabe ao certo o porquê nem o como, por um bando de queixadas. Era o menino-animal brasileiro do Mato Grosso do Sul. Tinha por volta de treze anos, mas aparentava muito mais. Como natural dos adolescentes, estava descobrindo o sexo com uma fêmea de seu bando, mas isso não é de interesse para nossa história.

Donc, tinha a idéia de que ele era o mais hábil do bando. Tinha noção de que suas patas (a chamaria assim se tivesse o domínio da Língua Portuguesa) eram melhores instrumentos de caçar do que apenas as presas de seus companheiros. Até conseguia manusear pedaços de madeira com os quais desferia golpes mortais em suas presas. Donc era o melhor e possivelmente o futuro líder do bando.

Em uma caçada ilegal, um grupo de assentados de uma gleba qualquer do estado, achou esse menino arredio, correndo junto as queixadas para se proteger dos tiros. Logo, foi comunicado a polícia que em uma andança para se observar a natureza, acharam um menino misturado a um bando de porcos.

Capturam-no, demoram meses para alguma adaptação. O chamam de Donc, pois esse é o barulho que ele mais faz. Ele começa a compreender um pouco do mundo dos humanos, esses seres tão mais parecidos com ele, mas com um cheiro diferente. Fica famoso, todos querem vê-lo. Ganha casa e pensão. Interessa-se pelas fêmeas humanas, mas sem sucesso amoroso. 

Logo recebe a alcunha de menino-porco. Todos começam a falar do guri feio, baixinho, que fede. A fama, com o tempo vai passando. Donc deixa de se sentir o futuro líder do bando. Donc agora é o que os outros disserem que ele era. Sua existência passava a ser essa de feio, baixinho, que fede. Procurou uma solução.

Rendeu-se ao Alcoolismo.

 



Escrito por Lander Paz às 10h00
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  Existir

 

Existir

 

No início era apenas ele. Único, onipresente do nada. Era o pensamento, a essência. Existia por si só. Existia por que pensava. Afinal, estava ali, dono de tudo. Talvez por tédio, o senhor das ciências biológicas e exatas fez tudo a perfeição a partir de uma simples explosão.

Ele também é muito letrado nas ditas ciências humanas. Senhor de todas as filosofias. Mais uma vez, possivelmente do tédio, fez-se de sua vontade um planeta e nele pôs Adão.

Sua existência passou a ser comprovada em outro ser. Os dois sabiam que existiam, sabiam que o outro existia e sabiam que o outro sabia que ele exista. Mas o pobre Adão andava solitário em um planeta tão extenso. Precisava de uma companhia. E veio Eva para reafirma a existência de todos.

Agora, ele estava onipresente em tudo que criara. Mas não pode evitar que anos depois sua existência passaria a ser questionada. 



Escrito por Lander Paz às 11h10
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  Como o dia começa

 

Como o dia começa

 

Acordar cedo todo dia é um sacrifício. Sempre aquela briga, sempre a pedir quinze minutos a mais para o despertador.  Acordar de bom humor então, raridade.

É muito bom olhar para seus olhos ainda fechados, sua face já emburrada pela manhã. Seguro seu rosto e beijo sua boca que está com aquele hálito matinal que eu ignoro, pois também ainda não escovei os dentes.

Você me abraça, como que a pedir agora os quinze minutos para mim. Eu, às vezes, confesso, cochilo nesse meio tempo, mas sempre acordo antes de você levantar.

Depois de vencer os últimos vestígios de sono, acontece todo aquele ritual matinal. Na mesa do café da manhã são proferidas poucas palavras. A alimentação é maquinal, por obrigação. Eu fico parado, olhando você ainda de pijama, linda a mastigar qualquer coisa. Não resisto, saio da minha cadeira e vou a sua direção.

Voltaremos para o quarto se der para chegar. E é só depois disso que nosso dia realmente começa.


 



Escrito por Lander Paz às 11h10
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  A brincadeira de Marina

 

A brincadeira de Marina


Caminham. Voltas e voltas pelo estádio. Carros e árvores se misturam como cenário. Caminham essas pessoas. Muitas, que de vez em quando, resolvem levar uma vida um pouco menos sedentária.

Meninas desfilando a sexualidade que algumas fingem ter. Mulheres em briga com a balança. Homens acima dos 30 que decidiram parar de cultivar uma barriguinha, esse bando de frescos. E é claro, o gênio que montou um bar nas imediações. Esse deve ser ídolo de uma multidão.

A famosa academia dos velhos, com equipamentos que se propõem a mover as articulações sem tanto impacto, fica cercada por inúmeros jovens a inventar novas utilidades para esses brinquedos.

Será que o amor pode acontecer em uma ambiente assim? Será que a poesia pode nascer de algo assim? Torcicolos certamente são previsíveis pelo tamanho de trabalho que o pescoço dessas pessoas tem durante o exercício físico.

Acontece que Marina, menina bonita, de caderno na mão vai lá para se inspirar. Escreve por cerca de uma hora por dia. Sentada em uma cadeira, que faz parte do seu equipamento de final de tarde. Lá ela dissimula analisar e descrever personagens da vida real.

Marina, menina bonita, magra e gostosa por natureza. Ela não deve ir lá para escrever um livro. Pois calada, analisando, não chega a conhecer a fundo as pessoas. Marina deve ir lá apenas para torturar as pessoas. Apenas para mostrar que não precisa de tantos sacrifícios para ter um belo corpo. Pelo menos estes sacrifícios, estes que são expostos.

Seria mais engraçado se ela fossa escrever seus textos em uma academia, mas lá não seria agradável e fresco como ao ar livre. Marina, menina bonita e serelepe.  

 

 



Escrito por Lander Paz às 10h50
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  Habitual de Amanda


Habitual de Amanda


Amanda abriu os olhos, espreguiçou-se e levantou com o ânimo habitual. Era segunda-feira. E lá se ia ela a perder-se em rotina. As flores só têm cheiro para quem nunca passou pelo jardim, as árvores são verdes para quem nunca caminhou por essa rua.

Com sua visão cinza de Campo Grande, ia Amanda ao ponto de ônibus, passando por belas e cheirosas paisagens para as quais seus instintos estavam adormecidos. A rotina brutal de sentar-se e esperar o tempo passar havia anestesiado sua percepção.

Os sentimentos das oito as dezoito eram maquinais. Era sempre assim de segunda a sexta. Nos sábados até o meio dia. Desse período em diante, principalmente aos domingos, acontecia a metamorfose. A crosta burocrática se quebrava e uma pessoa amável e religiosa brotava. Amante da vida até as vinte e uma horas, horário de dormir.

Essa era a regra. Vamos à exceção:

Segunda-feira foi rotineira até o horário de almoço. Foi por esse horário que se deparou com o calendário. Notou então que era seu aniversário, encheu-se da nostalgia e depressão que lhe davam prazer. Pensou só no que não havia feito. Analisou que o dia correria de forma diferente e que sua família poderia ter notado qual data era.

Fingiu então alegria pela possível festa surpresa que estavam preparando. Eles não eram bons de surpresa, mas eram uns bobos amáveis. As horas correram com um tom de ansiedade. Os barulhos dos carros zumbiam notas de prazer pela vida correr caótica. As horas passaram.

Amanda recebeu uma ligação, pediam que fosse a casa de Augusto. Ela analisou e decidiu ir para casa direto. Esse convite para casa de Augusto era para distraí-la enquanto terminavam os preparativos. Confirmou o convite e partiu para casa.

Abriu a porta esperando ter segundos de verdadeira felicidade por haver pessoas da quais gosta reunidas. Deparou-se com o breu e o silêncio por segundos. Retornou a frieza habitual. Iria receber os parabéns quando todos chegassem do trabalho. Foi dormir. Para que não fosse incomodada, desligou-se do mundo.

Na casa de Augusto todos esperavam por Amanda que demorava a aparecer. Alguns parentes já bêbados, pois haviam atacado as cervejas antes da hora. A aniversariante não chegava e parecia incomunicável. A festa surpresa havia melado.

 

(Em oferecimento a minha prima Fabíola pelos 25 anos dela (P.S. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência ou sacanagem mesmo))

 



Escrito por Lander Paz às 12h02
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  Às vezes nascem as palavras

 

Às vezes nascem as palavras

 

 

Em algum lugar, alguém querendo escrever:

É dificil sentar-se a mesa e esperar que de súbito venha a inspiração. Esperar que as palavras se formem sozinhas em minha frente. É complicado que aconteça isso e por essas palavras a palavra gênio seja proferida aos ventos.

Mas eu não quero ser chamado de gênio, não por agora, porém seria muito estimulante ao meu ego. O que eu quero é escrever, dar continuidade as palavras e que elas façam sentido. Quero preencher o vazio do papel.

Mas a inspiração não vem de súbito. As palavras não passeiam pelo ar esperando serem pegas com uma rede, jogadas no papel e se organizarem de forma aleatória para que algo faça sentido.  

Desisto. Quanto tiver algo a escrever voltarei e recomeçarei com grande prazer.




Na Casa de um escritor qualquer, mas já com certa fama:

Posto o papel sobre a mesa, as borboletas voavam ao redor de sua cabeça. Borboletas de todas as cores, formas, tamanhos e classes. Ele capturava uma a uma e as jogava no papel para que sua coleção pudesse ser mostrada ao mundo.

E lá se iam acumulando borboletas substantivos, borboletas verbos, borboletas adjetivos (essas aos montes). Logo, findaria seu trabalho de caça e arte para que pudesse ser aclamado pelo mundo. Gênio!



Na casa de outro escritor mais famoso por outros talentos, mas mesmo assim um ótimo escritor.

Com a mão sobre a cabeça hoje é dia de escrever um romance policial. A editora já está me apertando. Eu digo a eles que as palavras não vêm do nada, que preciso de tempo e de alguém que queira me ditar sobre o que escrever. Mas esses pobres de fé me pressionam com suas datas limites.

Sem problemas, hoje vai tudo bem. Já tenho a história e o autor certo.


Na minha casa escrevendo algo:

Lista de compras: Sabão em pó, Sabonete, Shampo, Creme dental, Macarrão instantâneo, sardinha em lata etc....



 



Escrito por Lander Paz às 10h53
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  Elas conseguem

 

Elas conseguem

 

Finalmente chegou o sábado. Agora posso descansar na minha cadeira. Posso sentar na varanda tomando meu tereré enquanto penso sobre minhas bobeiras. É sábado!  Hoje é dia do ócio. Vou aproveitar para coçar o máximo que eu puder.

Não quero perder o prazer de não fazer nada. De sentir a preguiça correndo pelo meu corpo enquanto me delicio com essa água gelada. O único movimento que tenho em mente é de mais tarde me locomover até a geladeira pegar uma cerveja. Cerveja essa que está comprada desde ontem para não precisar sair de casa para comprá-la hoje.

E no domingo, já está combinado um churrasco com os amigos. Depois da calmaria de hoje, vem a festa e a farra de amanhã. Meu dia está perfeito.

- Alex seu vagabundo! Se está pensando que vai ficar mesmo sentado nessa cadeira enquanto a vida acontece, está muito enganado. Hoje é sábado, o único dia da semana que temos para por em ordem a casa. Então, levanta e vamos ao shopping, pagar algumas contas, passar no mecânico, mercado, fazer o almoço e depois  fazer uma faxina geral em casa. Vamos, está esperando o que? O tempo urge.

Acabou meu sábado. Ainda bem que tenho a noite para dormir e poder descansar tranquilo para o churrasco com os amigos.

- E não esquece que hoje é aniversário da mamãe. Vai estar todo mundo lá, toda minha família. Então vamos ficar até de madrugada por lá.

 



Escrito por Lander Paz às 14h19
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  Uma história de Carambola

Uma história de Carambola

O aluno a superar o mestre. Esse era o meu desejo naquela noite, mas não deu. Admito que tenha meus limites.

Eu, que hora ou outra recebo a alcunha de Carambola, se nenhum motivo aparente, sempre fui um guri introvertido. Sempre senti minhas mãos tremerem, coração acelerar, sempre senti aqueles trecos de gente tímida ao ter que conversar com alguém a qual eu julgava ser superior a mim. Eu sempre julguei quase todos superiores a mim.

O professor, o diretor, o funcionário, as garotas bonitas, todos esses eram superiores a mim. Pelo menos era isso que eu pensava.

Eu sentia certa admiração por um rapaz do colégio. Ele comia todas. Era impressionante como alguém da nossa idade, sem carro, sem muito dinheiro pudesse superar os limites de nossa adolescência como transar com garota mais velha sem pagar, tipo uma universitária ou uma irmã e até mãe de algum colega de colégio. Esse era Arthur.

Arthur sempre foi sociável com todos, eu precisava de alguns conselhos. Conselhos esses vergonhosos a se pedir para um pai e muito mais para uma mãe. Imagina a situação: “Mãe, eu quero comer a garota mais gostosa do colégio e não sei como... não mãe, eu não estou apaixonado por ela é só sexo”.

Em uma festa da escola, todos os alunos de minha turma estavam presentes. Arthur estava lá, esperando o momento do bote, como um gato a espreita dos pardais. Sentindo que esse era o momento de me aproveitar da experiência dele, enchi minha cara de coragem numa graduação alcoólica de 43,3%.

Sentindo-me pronto, fui ter uma conversa homem para homem com Arthur. Eu não iria chegar choramingando e sim me fazendo de igual, estudando, imitando, aprendendo com ele. Fiz os comprimentos. Conversamos sobre muitas coisas de homem como futebol e vídeo-game. Logo veio a palavra de quem entendia do assunto, algo que passava despercebido por mim.

- A Irmã do Lucio quer você. – Disse Arthur.

- O que?

- A Irmã do Lúcio quer ficar com você.

A Irmã do Lúcio era a guria mais linda, encorpada e experiente da festa. Eu mal entendia por que ela estava lá. Afinal, já cursava o terceiro ano de direito e andava só com homens bem dotados. Mas bem dotados financeiramente, digo.

Sentindo que estava sem saída, falei que iria conversar com ela no momento adequado. Arthur mal concordou com a cabeça e já partiu para o ataque na amiga da irmã de Lúcio. Ouvi um pouco da conversa, estudando como poderia fazer para me aproximar da garota.

Bom, o importante é que obtive sucesso. Não quero desvendar minhas artimanhas para conseguir levar a garota para o quarto dela e transar de forma animalesca. Bom, pelo menos para mim. Meu ego desinflou ao ouvir uma avaliação sobre meu desempenho. Sim, ela foi cruel a esse ponto.

- Realmente perdi meu tempo. Você tem muito que aprender, Carambola. Eu achei que seria uma experiência legal, que a sua geração estava bem ensinada. Eu devia ter ficado no meu quarto ou saído para transar com outra pessoa. Desculpe-me, mas foi uma noite perdida para mim. Não fique chateado, mas isso vai lhe servir de incentivo para melhorar. E faça isso, por favor, para não desapontar outra garota. – Disse ela educadamente.

- Mas então, por que você me deu?

- Eu caí na conversa da minha amiga, aquela que estava com o Arthur. Ela me disse que por mais bestas que meninos da sua idade aparentam ser, alguns sabem o que fazer melhor do que outros da nossa. Mas esse não é o seu caso. Conversando com você lhe achei tão idiota quanto o Arthur e pensei que você fosse capaz de ter um desempenho razoável. Estou é achando que a minha amiga sai demais com pessoas mais jovens e isso está afetando a capacidade de julgamento dela.

Depois dessa instrutiva conversa, resolvi sair do quarto. Ela foi para outra festa, talvez a procura de salvar a noite.

E eu não superei meu mestre naquele momento. Mesmo sem Arthur saber, ser idiota como ele me fez ir para o quarto com uma das duas garotas mais desejadas da festa. A outra, foi com ele. Mas, pelo que percebi com o passar dos tempos, ele ainda tinha contato e prestigio com ela. Arthur conseguiu repetir o feito mais vezes, ao contrário de minha pessoa.

Essa experiência me deu motivos para ser o que sou hoje. Não quero ouvir nenhuma reclamação de qualquer mulher, por isso me garanto. Hoje, sei que sou capaz de pagar as mais lindas de onde estou. E essa foi minha fama no colégio, eu fui o cara que conseguiu comer a irmã do Lúcio. O único. Tomara que nunca saibam que ela não repetiu a experiência por causa de meu fraco desempenho.



Escrito por Lander Paz às 09h55
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  O Garoto que gostava do Dicionário

 

O Garoto que gostava do Dicionário

O clima estava tenso. A ansiedade subia pelo seu corpo. Aquela pergunta não era uma a qual ele queria responder. Mas mesmo assim a professora insistia:

- Vamos, o que você mais gosta de ler?

Enquanto fitava a todos os colegas na sala, sentia seu coração acelerar. Sua cabeça viajava em alternativas para essa resposta.

Na verdade, ele tinha certo pudor de assumir o que mais gostava de ler. Achava muito estranho alguém com tal mania: ler dicionário.

Tinha por hábito chegar em casa, deitar-se e abrir o dicionário em uma página a esmo. Era como se estudasse uma língua diferente. Uma língua em desuso, morta. Como se estudasse os costumes dos antepassados e decifrasse algo dos primórdios da linguagem falada.

Assim, poderia sair falando palavras estranhas aos coleguinhas e curtir a sensação de sabedoria, de poder. Afinal, eles não sabiam do que ele estava falando e se isso era bom ou ruim. Gostava de deixar seu público estupefato. Esse público de comportamento execrável. O apogeu era ver a cara de interrogação de alguma pessoa.

Sentia-se um capitão abalroando o inimigo. E essa era uma sabedoria módica, adquirida em qualquer biblioteca.

E como se entregar agora aos convivas? Como delatar a si mesmo respondendo a pergunta inocente da professora? Olhou pela janela e viu a chuva a precipitar pelo gramado. Quase se esvaiu em suor.

Resolveu então deixar de ficar apenas estagnado e tomar uma atitude. Engoliu seco. Respirou o mais fundo que pode e disse:

- Gibi. O que mais gosto de ler é gibi, professora.

 



Escrito por Lander Paz às 10h50
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  Osvaldo

Osvaldo

 

O sol pintava o fim de tarde no horizonte. Numa cidade sem tantos prédios, isso às vezes é possível de se notar. A sexta-feira em Campo Grande corria comumente. Mais comum ainda era a mulher de Osvaldo ligando para ele a cada minuto, como que se tentasse o rastrear passo por passo.

Osvaldo era o símbolo de fidelidade da turma. Oportunidades de desfrutar novas carnes o acaso até lhe dava, mas ele recusava cortesmente. Por ser assim, às vezes, era alvo de piadas, mas tudo isso era brincadeira da turma. Mesmo assim, a mulher dele seguia ligando insistentemente.

Aos amigos isso era comum. A quase todos amigos isso era comum. Alcir era novo no grupo e para ele essa situação causava estranheza.

Happy-hour. Todos tomando cerveja e falando asneiras. A gostosa do escritório ao lado era a pauta do momento. Ligação para Osvaldo.

- Oi amor. Tudo bem? ... Estou com a turma do escritório tomando algumas cervejas em um bar perto ao serviço... Não, eu não vejo nada de mais nisso... Sim, há mulheres aqui, mas não vou transar com nenhuma delas... Amor, você ainda está aí? Acho que desligou.

Alcir vendo a cena e tamanha sinceridade de Osvaldo fica inquieto. Resolve, então, perguntar ao novo amigo:

- Osvaldo, por que você contou onde estávamos? Pelo jeito ela brigou, como a minha brigaria se soubesse que estou aqui. Por isso, disse para minha mulher que estava fazendo hora-extra.

-Alcir, e quando essa hora-extra não aparecer no final do mês?

- Digo que estavam errados. Erro de digitação no holerite.

- E ela vai acreditar?

- Acredito que sim. Ela é super tranquila.

- No meu caso é diferente. Se eu fizesse isso minha mulher com certeza descobriria que eu não fiz hora-extra nenhuma e ficaria especulando em qual puteiro eu estaria zoneando com os amigos, essas vagabundos do escritório. Não minto para ela para não ter isso. Cansei de situações assim. Sempre inventando uma mentirinha para evitar briga e ela sempre caçando confusão comigo. Vou te contar uma conversa. Não me recordo com a exatidão o diálogo que vou contar, mas foi quase isso:

“Um belo dia ela me liga e pergunta onde eu estava. Ela não curte que eu tome cerveja sem a presença dela, pois assim ela não pode me controlar. Então, disse que estava no mercado comprando umas coisinhas. Ela quis saber o que, mas eu não disse e desliguei. Antes que ela ligasse de novo, corri para o mercado comprar algo para janta. Cheguei em casa. Ela logo sentiu o odor de cerveja. Já veio me xingando. Natural isso. Resolvi então mudar o rumo do jogo:

-Sim, eu estava tomando uma cerveja com o Ricardo. Ele estava precisando conversar, então fomos para um bar, jogar uma sinuca e falar da vida.

- Viu. Sabia que você estava em algum bar, enchendo a cara com algum vagabundo do escritório.

- Por isso eu não te contei. É sempre assim. Já disse que o rapaz precisava ouvir alguns conselhos. Você sempre vê maldade no que eu faço.

- Nada disso. O que me deixa magoada é que você mente para mim. Como confiar em você se em coisas simples como conversar com o amigo você não me conta? Prefere inventar uma mentira. É isso nosso relacionamento? Mentiras. E quando for algo grave, qual vai ser sua desculpa?

- Eu conto essas mentirinhas para você não ficar estressada comigo. Afinal, eu não vejo maldade nenhuma no que faço. Eu não quero mentir para você, mas você acha que eu sempre apronto.

- Certo. Você é um santo! Nunca faz nada de errado e pelo bom coração que tem mente para mim. Tudo em você é bondade e eu sou uma bruxa.

(Respiro fundo)

- A partir de hoje eu digo tudo o que eu faço. Não escondo nada de você.

- Estou perplexa. Você, tomando uma atitude madura. (aplausos)

- Já que haverá briga de qualquer forma. Vamos discutir pela verdade e por nossos pontos de vista. De qualquer maneira você ficará brabinha comigo. Então, vai ser assim. Eu digo a verdade e você terá dois trabalhos: A de ficar nervosa comigo e a de se acalmar. Simples.

- Mas você é um ...

Nesse momento eu a beijei e tentei finalizar a discussão indo tomar banho. E depois desse dia só digo a verdade. Afinal, vamos brigar de qualquer jeito.”

- Mas por que você não larga dela? Viver brigando é muito ruim.

- Porque ela é minha vida. Ela sabe disso. O que não posso fazer é deixar ela viver a minha vida por mim. Mas eu a respiro e sei que sou eu o que corre nas veias e artérias dela.

Nesse momento, Ricardo entra na conversa.

- Por isso que eu prefiro minha namorada, Osvaldo. Ela não me liga. Se eu falo que to no bar está tudo bem. Se eu quero sexo é só ligar. A gente sempre está bem e não brigamos por besteira.

Osvaldo interpela:

-Ricardo, sua namorada não te incomoda por um simples motivo: ela tem outro.

Osvaldo levanta e vai ao banheiro, assim, ele encerra essa discussão.



Escrito por Lander Paz às 13h38
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  Futuro

Futuro

 

Eu me arrumei, beijei ela no horário marcado.

Tomei o café com o mesmo gosto de ontem.

Quis atravessar a rua sem olhar para os lados.

Quis sentir o nada, quis sair do ser.


O acaso um dia me parou em uma rua proxima ao centro,

Me lembrou que nada é por acaso. Ele se sente só.

A fé já não me faz crer no movimento das montanhas.

O suor corre pela face a desejar um futuro!

 

 

Esse texto foi escrito por mim e Paulo Xavier acredito que no ano de 2005 em uma aula quaquer do curso de Jornalismo na Uniderp. Nota-se que nossas aulas eram produtivas. Ainda, bem, né? 

Ficamos então com esse texto de bônus nesse blog. Até hoje me pergunto:Por que nunca o publiquei? Deve ser porque achava-o incompleto e Paulo ficara de o completar. 

P.S: Fica o pedido. Paulo Xavier, atualiza seu blog e volta a escrever. Seu trabalho é muito bom.



Escrito por Lander Paz às 10h20
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  O Sorriso

 

O Sorriso

 

Corre em doces mãos este corpo que agoniza. Sente os sedosos cabelos e molhados de lágrima sobre sua face. Aceita, pois não há mais nada a se fazer, que é a sua hora.

Foram bons anos vividos juntos a ela, a garota de olhos negros. Ela, que era sua dona, dona de seu mundo, a razão de sua vida, e que agora chora enquanto o abraça. Não há mais nada o que se possa fazer, essas são as palavras de quem se diz autoridade.

Desde que se dá por criatura, lembre da companhia da garota de olhos negros. Ela, sempre cuidadosa, de bons tratos. Sempre com uma palavra de carinho nos momentos ternos e com as repreensões mais doces quando ele fazia besteira. Ele, sempre sonhou em poder falar com ela. Sim, conversar. O trocar de palavras era seu maior desejo. Mas a natureza não permite que as palavras se formem em sua boca. Sentia às vezes inveja das amigas da garota que ficavam horas e horas conversando sobre as mais variadas besteiras com ela.

 Mas ele é arteiro, cheio de artimanhas no olhar, no tom, nos gestos. Ganhava-a com pouco, às vezes, apenas sua presença, sem palavras. Por mais que sonhasse em um dia poder dizer que ama a garota dos olhos negros, fingia aceitar que isso não era possível. Longe dos olhos de qualquer um, fazia suas orações para as entidades que acreditava. Ouviu falar de uma Mãe Natureza e parecia a ela se agarrar nos últimos dias, já sentindo que o fim chegava sem perdão.

As lembranças já estão embaçadas, como o seu olhar. Ele sente as lágrimas correrem pelo seu rosto, mas já não sabe se são as deles o se vêm do choro da garota de olhos negros.

Como queria poder estender um pouco mais a sua vida, mas isso é impossível. O veredicto já está dado: chegou a sua hora. Resta então aproveitar o último passear das mãos doces em seu corpo. Sentir o carinho final.

Fita então os olhos da garota como que querendo falar algo, mas a natureza não o permite a isso. Quer falar o quanto a ama, falar de uma forma que todos entendam, que seja audível, mas não é capaz. Reza a mãe natureza para que ela lhe de este dom, este restinho de força, e que de sua boca saiam mais do que gemidos.

Ensaia então um sorriso e espera que ela possa o entender. Escuta sair da sua boca a palavra obrigado, mas percebe que isso é apenas delírio. Sorri. Esse é seu último gesto. Seu corpo agora está encharcado das lágrimas da garota, mas isso ele já não sente mais. Foram 14 anos de amizade fiel, como o cachorro e sua dona. 14 anos que findam agora de serem vividos e entram para a memória, tornam-se lembranças.

O Cachorro não pôde dizer o quanto a amava, o quanto era grato pela existência da garota. Mas ela sabia disso. E era recíproco.

 



Escrito por Lander Paz às 10h13
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